Aqui não é como os contos de fadas que tem começo, meio e fim. Aqui tem dragões, fadas, elfos, unicórnios, espadas, arcos e flechas. Nada aqui é feito sobre regras, eu sou uma Rebelião pedindo, implorando por liberdade.
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domingo, 16 de julho de 2017

Eu te enterrei aos 21 anos.

   

Eu te enterrei aos 21 anos de idade. 
Aos 16 anos eu comecei seu funeral. Foi um processo árduo e doloroso. 
Destruí todas as lembranças boas. 
Guardei todas as lembranças más, porque elas me tornariam forte. 

Rainha Má, 
Crucificou minha mãe, como a madrasta fez com a Cinderela. 
Esfregou-a no asfalto, rasgo-lhe o peito, tentou destruí-la a todo custo, mesmo no ventre. 
Mas, esqueceu-se que minha mãe serve a um Rei que o mundo desconhece. 

Aos 16 anos entendi como era fria. 
Maldizia a vida, gorava desgraça a tudo e a todos. 
Não sabia dividir, não sabia o que era gostar. 
Só conhecia o odiar. 

Aprendi que seu sangue não é quente, é frio. 
Negro como a morte. 
Sombrio. 

Você não entendeu a doçura da vida, 
não conheceu as flores, 
nem participou dos amores que as pessoas têm a oferecer. 
Nada. 

Aos 18 anos, comecei minha carreira, 
seu funeral ainda era recorrente 
em minha mente. 

Era como um eterno funeral sem fim. 

O caixão era pequeno demais, outrora, grande demais. 
Ele nunca te servia, talvez porque seu corpo nunca soube se adaptar as nuances da vida. 

Os anos se passaram, com 21 anos eu consegui te enterrar. 

Eu te enterrei aos 21 anos. 

Não coloquei lápide,
não queria lembrar de você. 
Nem seu nome, 
nem sua existência. 

Você é um monstro, uma besta. 

Nunca existiu um perfume na sua pele, 
nunca houve paz nas suas palavras
você é o que existe de pior neste mundo. 

Eu vivi bem, sozinha, sem você. 

Transferia meu vazio nos outros, 
na esperança de preencher um buraco sem fundo, 
onde, nem todo amor do mundo, 
poderia preencher. 

Adotei pessoas, 
criei laços sanguíneos invisíveis, 
na esperança de tomar o seu lugar. 

Até que houve o dia em que você
ressuscitou. 

Meu coração disparou, 
era impossível!

Eu havia te enterrado a tanto tempo, 
tão fundo, 
tão profundo, 
tão escondido! 

Minhas lembranças boas começaram a me assombrar, 
minhas lembranças ruins nunca me abandonaram, 
pareciam que elas estavam mais vivas do que quando ocorreram.

Quando te vi fora do caixão, 
me surpreendi.

Eras formosa,
estava vestida de linho fino, 
perfumada, 
cheia de flores
e enfeites. 

Passou uma suavidade, 
fragilidade, 
nunca vista antes. 

Cheguei por um momento a achar que
eu poderia viver aquilo 
que a vida me privou. 

Mas não. 

Quando o inverno chegou, 
suas flores morreram, 
seu linho fino sujou, 
rasgou. 
Seu perfume, 
esvaiu. 

Seu verdadeiro "eu"
surgiu. 

Podre, 
fétido, 
velha! 

Essas palavras ecoavam em minha mente. 

Definhando em maldade, 
língua afiada como uma navalha, 
coração frio, 
queixo duro, 
soberba. 

Como sempre foi. 

Não queria tocar em você, 
quando realizei seu funeral,
fiquei com marcas irreparáveis. 

Mas tornar-te ao túmulo, 
doeria ainda mais. 
Cortaria minhas mãos, 
ainda mais fundo. 

Minhas mãos sangravam, 
minhas lágrimas corriam, 
não queria acreditar 
que você não era tudo aquilo. 

Que tudo não passou de uma 
mentira. 
Delírio. 
Engano. 
Uso. 
Abuso. 

Coloquei tudo de volta ao caixão. 
Queimei tudo o que achei que vivi. 

Dessa vez doeria ainda mais. 

Porque um dia eu te matei dentro de mim, 
mas você ressuscitou e, 
eu não sei se tenho mais forças, 
para enterrá-la novamente. 

Eu preciso, 
Eu vou enterrá-la. 
Quantas vezes for necessário. 

Você é, 
pra sempre será, 
um defunto.